A minha língua portuguesa

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O que você esperava de “hoje” no recreio do primário?

 

Eu queria ser médica. Minha irmã veterinária. As circunstâncias levaram-me à comunicação e ela para o mercado financeiro. Nunca imaginei que cruzaria o mundo inteiro e conheceria cada um dos oceanos.

Continuo orgulhosa por falar, ler e escrever em português. Idioma deveria ser obrigação e não um prazer. Faz parte de nossa cultura. Faz parte de nossa memória. Faz parte de nós.

Eu sonho em português.

Não acreditaria se alguém me contasse que os fascículos de “Conhecer” ou as edições da “Barsa” sairiam de cena. Pior, chegaria uma tal de internet que nos levaria a qualquer canto do mundo ou a qualquer informação. Mesmo que eu fosse a mais preguiçosa das criaturas, teria o mesmo conteúdo nas mãos.

Se a “tia” Eloisa, já na primeira série do ensino fundamental adiantasse que não precisaríamos aprender concordância ou acentuação porque os corretores do computador fariam por nós, ficaria decepcionada. Teria estudado cada um dos capítulos dos livros de gramática do mesmo jeito, mesmo que algum colega enviasse um telegrama dizendo que esta mesma gramática seria “assassinada” pela nova geração.

Hoje, mais de três décadas depois, eu não teria nem o trabalho de abrir o envelope. Seguramente, um e-mail teria sido enviado.

Provavelmente, a resposta seria: “Ok. Tks.”

A crise mundial teria atingido até a nossa língua?

E separação de silabas? Aprendi com o meu pai de uma forma diferente, mas que sempre deu certo. Jogo das palmas. E hoje, futuro para aquele tempo, ninguém mais separa sílabas.

Na minha casa era sempre divertido aprender gramática.

Minha mãe adorava zeugma:

– Você gosta de bagunça; eu, casa arrumada.

E na mesma frase, eu ainda buscava diversas outras figuras de construção.

Na minha época, os educadores ainda ensinavam a origem das palavras. Aprendíamos o “porquê” das coisas.

Estes porquês fazem falta e hoje encontramos uma geração perdida. Sem sonhos. Sem esperanças.

Sem gramática.

Também, nunca esquecerei que Ipanema é palavra indígena e significa água ruim, assim como Uberaba, água cristalina.

Talvez a análise morfológica tenha casado com a sintática. A Fonética tenha ficado solteira. Porém, cada vez mais escuto que ela, a fonética, sofreu muitos acidentes nas estradas dos últimos anos.

Será que apenas a estilística teria sobrevivido? Seria essa afirmação denotativa? Não creio.

Observo que os adolescentes são conotativos e acham que estão na moda. As palavras usadas de forma correta têm poder. Pena que eles não percebam no devido tempo.

Até hoje, na cabeceira da minha cama tenho um dicionário bem gordinho, para que a minha língua não seja perdida.

Mas os melhores presentes que ganhei dos meus pais, sem dúvida, foram as enciclopédias gramaticais, como A Nova Gramática de Faraco & Moura. Minha favorita.

Consoante minha experiência, falta educação para nosso país.

Que ressuscitem a nossa língua!

Que não façam morta a nossa gramática!

Termino com litotes e outras figuras de linguagem e de estilo combinadas:

Não estou nada contente com a “nova” gramática distribuída nas bocas do Brasil.

Se líderes políticos enterram o idioma, o que devemos esperar da multidão?

E que ensinem o nome de nossa república federativa ao mundo.

BraSil. Com S.

Sem antonomásia, mas antes de cobrarmos os gringos, deveríamos cobrar os gorilas que nos representam. Pelo menos um trecho do hino deveria estar na ponta da língua.

Se avaliada, a composição centenária gera muitas respostas para a atual circunstância.

E assim, termino: “Dos filhos deste solo és mãe gentil. Pátria amada, Brasil.“

 

Por Paula Tooths – Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de quatro títulos publicados no Reino Unido e repórter do Na Pauta Online.

 

Para o Jornal na Pauta

 

A “minha” língua portuguesa